Nós, os cuidadores e a identidade do paciente

Após anos, dias, horas, noites em claro, vivemos em função daquele que de nós precisa. No início, a ajuda é muito relativa, dependendo do estágio do Mal de Alzheimer; uma dica para que se lembre de uma palavra engasgada,a mão carinhosa que segura a outra mão já um pouco trêmula, as tentativas de estar sempre no aqui e agora e não no passado remoto.

Como a doença é progressiva, a ajuda vai se tornando mais presente, como amarrar os cadarços do tênis, abotoar a blusa, pentear os cabelos e, enfim, o banho completo, as idas ao médico, as intermináveis internações. Mais adiante, o paciente depende completamente do Cuidador que é a figura referencial mais importante para ele. Esquece-se onde está, quer voltar sempre para sua casa, conversa e afirma ter visto seus entes já falecidos, e vai se esvaindo pouco a pouco do seu ser.

Seu mundo é particular, não sabe mais quem é, nos toma como nossa mãe ou pai e o Cuidador nesse afã, vai se acostumando com aquela pessoa, até que, um dia depara-se diante dela com muitas perguntas. Afinal, quem ali está , parece ser uma pessoa totalmente diferente daquela de algum tempo atrás. Emagreceu muito, está quase sempre alheia a tudo, a expressão é vaga, fisicamente, não se parece em nada com àquela mãe. A sensação de impotência é total; o que fazer diante daquele ser desconhecido, e como continuarmos nossa missão?

Idosos

Um dia, chegamos à conclusão que temos que internar nosso ente querido, pois ele necessita de uma equipe de profissionais. Daí em diante as diferenças são mais notadas, porque embora esteja sempre presente, quando voltamos para as nossas atividades se pergunta: Quem é aquela? Será que aquilo foi o que restou?

Este é o momento mais importante da relação Cuidador-paciente, em que devemos colocar toda a culpa de lado, e, estarmos certos que tudo fizemos. Não podemos nos esquecer de nós mesmos, devemos seguir em frente, e, a cada visita, pensarmos que ao sairmos, nosso idoso está bem cuidado. É, então, chegado o momento de mantermos eternamente em nossas mentes a imagem real dele, com todas as suas características próprias.

Vem-me à mente, uma frase de minha mãe, saudável, alegre, bonita: "Quando eu não mais viver, deem tudo para os pobres e lembrem-se de mim nos bons momentos em que passamos juntos".

Norma Quintella

agosto de 2009